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Primeiros cuidados psicológicos em tempo de pandemia
O Brasil não é considerado um país vulnerável a grandes catástrofes naturais e desastres como outros países. Não temos terremotos ou furacões, mas convivemos com enchentes, quedas de barragem, episódios de violência e terrorismo. Sempre tivemos grandes números, mas, aprendemos a conviver com eles. Nunca foi prioridade para os gestores públicos a elaboração de programas sólidos de prevenção e atuação antes, durante e depois do ocorrido. A tragédia de Brumadinho comprova a importância destes programas, visto que os casos de suicídio aumentaram após o evento. As intervenções são sempre ao nível individual e desconsideram o aspecto social do evento. Restringem-se à oferta de suporte de psicólogos clínicos e psiquiatras, como se a ocorrência do evento fosse sinônimo de trauma. A psicologia social comunitária tem muito a colaborar com esses eventos não somente do que diz respeito à pesquisa como também intervenção. Afinal, a pandemia pode ser considerada um fenômeno biopsicossocial o que exige a interdisciplinaridade. A atuação da psicologia nas emergências ainda é uma prática recente e está baseada na teoria da crise e em algumas ideias postuladas pela psicologia positiva.
A teoria da escola hierárquica das necessidades de Maslow (1970) hierarquizou as necessidades humanas e associa a motivação dos indivíduos à satisfação dessas necessidades. A pandemia afeta diretamente as nossas necessidades de segurança, sociais e, consequentemente, a autoestima e auto realização. De acordo com essa teoria, a passagem de um nível para o outro depende de um certo grau de satisfação no nível anterior. O isolamento social e o desamparo diante da possibilidade de morte afetam a satisfação de nossas necessidades básicas. A crise pode ser definida como um estado transitório de desorganização que a pessoa passa caracterizado, principalmente, por uma incapacidade no manejo de situações particulares utilizando métodos comumente conhecidos para a solução de problemas. Entretanto, muitas vezes, não estamos em crise, mas, assistimos o sofrimento de outra pessoa e não sabemos como nos comportar. A proposta desse artigo é apresentar o guia de primeiros socorros psicológicos criado pelo projeto Sphere (2011) e IASC (2011). O objetivo é oferecer um roteiro para que qualquer pessoa possa dar uma resposta humana aquelas pessoas em situação de sofrimento e com necessidade de apoio.
O que é o PCP?
O PCP( primeiros cuidados psicológicos) caracterizam-se por: oferecer apoio e cuidado prático não invasivo, avaliar as necessidades e preocupações do atendido, procurar suprir as necessidades básicas, escutar as pessoas sem pressioná-las a falar, confortá-las e ajudá-la a se sentirem mais calmas, bem como fornecer orientações na busca de informações, serviços e suportes sociais e protegê-las de danos adicionais. Importante ressaltar que não é um atendimento psicológico profissional e não é um “debriefing” psicológico, afinal não envolve discussão detalhada sobre o evento que causou o sofrimento. É uma atitude que devemos tomar diante de uma situação de crise para que não haja o agravamento do quadro e contribua para a diminuição do sofrimento psicológico de outra pessoa. Muitas vezes, uma simples informação ou até mesmo a oferta de uma escuta não invasiva determinará se o evento será traumático ou não.
Quem pode ser beneficiado por esses cuidados?
Pessoas muito abaladas que foram recentemente expostas a uma situação grave. No caso do covid-19, a crise pode se manifestar em diferentes espaços sociais: na família, no trabalho, na fila de um hospital para receber notícias dos pacientes enfim, em qualquer lugar. O isolamento social conduz a uma convivência familiar intensa o que pode gerar conflitos. Assim como no trabalho, o medo da contaminação colabora para uma sobrecarga e tensionamento das relações. O aumento no índice de divórcios e violência doméstica durante a pandemia são sintomas da dificuldade no manejo da crise. Existem situações em que a pessoa necessita de auxílio especializado. Aquele que vai ofertar o cuidado precisa reconhecer seus limites e admitir sua impotência diante disso. Pessoas que correm risco de morte, que estejam tão abaladas a ponto de não conseguirem cuidar de si mesmo ou dos próprios filhos e pessoas que podem provocar auto e hetero agressão não são beneficiadas por esse tipo de intervenção.
Como as pessoas podem reagir diante de uma situação de crise?
É importante saber que as pessoas respondem de variadas formas às situações de crise. Algumas se sentem paralisadas, com uma sensação de vazio, confusas ou muito desorientadas sobre o que está acontecendo. As reações vão de leves às severas. A maneira como a pessoa reage depende de vários fatores´, dentre esses, a natureza e severidade do evento ao qual foi exposta, vivência anterior da situação de crise, o apoio que a pessoa recebeu durante sua vida, o estado de saúde, a presença de um transtorno mental na família , cultura e tradições pessoais e a idade.
Quais cuidados são necessários para que a ajuda seja efetiva?
O lugar onde deve ser oferecido a ajuda, deve ter se possível, privacidade para que a confidencialidade e a dignidade possam ser respeitadas. O cuidado oferecido deve respeitar a segurança tanto de quem oferece quanto de quem recebe a ajuda. Em relação à segurança é necessário seguir as orientações da Organização Mundial de Saúde. O uso da tecnologia pode ser uma alternativa de cuidado no caso da pandemia. Ou seja, quando você assume a responsabilidade de oferecer apoio nas situações de crise é importante respeitar três princípios fundamentais: a dignidade, segurança e os direitos da pessoa atendida. Em todas as ações, independente do gênero ou da raça é necessário respeitar os valores culturais do atendido. Para oferecer o PCP não é necessário treinamento ou experiência de trabalho na área psicossocial. Entretanto, é recomendável que se faça por meio de uma organização ou serviço comunitário. Assim como é necessário fazer uma autoavaliação se tem ou não condições de oferecer ajuda.
Qual postura devo adotar?
Os princípios de ação do PCP são: observar, escutar e aproximar. Para estabelecer uma comunicação adequada é necessário ficar calmo, mostrar cooperação, não pressionar o relato (respeitar o silêncio e ficar ao lado pode ser igualmente significativo), ficar atento a linguagem corporal e as palavras. É sugerido que o cuidador possa falar e se comportar de tal forma que a cultura, o gênero, a religião, a idade e o costume das pessoas possam ser respeitados. Portanto, para oferecer um cuidado é necessário: encontrar um lugar silencioso para conversar, respeitar a privacidade e a confidencialidade do que for dito, a aproximação deve respeitar a idade, o gênero e a cultura da pessoa, só fornecer informações se realmente as tiver, utilizar uma linguagem simples , reconhecer como a pessoa está se sentindo e respeitar o silêncio. Deve-se evitar: pressionar para que a pessoa conte uma história pessoal, interromper ou acelerar o relato, julgar, utilizar termos técnicos, não relatar histórias de outras pessoas ou, a própria estória e principalmente, não menosprezar as estratégias que já foram utilizadas pelo atendido. Ajudar com responsabilidade significa cuidar da própria saúde e seu bem-estar.
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