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Mitos e Verdades sobre o suicídio

Por Carina Lordelo

O suicídio é definido como o ato deliberado executado pelo indivíduo contra a própria vida, de forma consciente e intencional, mesmo que seja ambivalente utilizando um meio que ele acredita ser letal. Antes do indivíduo atuar, ele apresenta comportamentos que podem ser descritos como suicidas tais como: os pensamentos, os planos e as tentativas de suicídio. Este é um fenômeno resultante de uma complexa interação entre fatores psicológicos, biológicos, genéticos, culturais e sociais. Deve-se evitar uma explicação simplista e associado a eventos pontuais. O fato de ser um processo, permite que se evite o desfecho final. O suicídio é uma relevante questão de saúde pública em todos os países do mundo. O Brasil ocupa o oitavo lugar em números absolutos. Sem contar a subnotificação, que é uma realidade no país.

Segundo a OMS (2014), é possível prevenir o suicídio, desde que, os profissionais da saúde possam atuar em todos os níveis de atenção, através da identificação dos fatores de risco e proteção. Além desses profissionais, o cidadão comum e a família também podem contribuir para diminuir esses riscos. Uma das maiores barreiras, que se enfrentam na prevenção do suicídio, é o preconceito que ainda existe a respeito da doença mental. O estigma contribui para que as pessoas se sintam discriminadas, envergonhadas, diferentes e, dessa forma, acabam mantendo o sofrimento em segredo. É importante que se desconstruam algumas ideias que circulam no nosso cotidiano a respeito do comportamento suicida. A exposição será feita no formato de pergunta e resposta para que o leitor possa refletir a respeito de suas crenças.

O suicídio é uma questão individual, já que cada um tem pleno direito a exercitar o livre arbítrio?

Mito. O suicida, na maioria das vezes, são portadores de um transtorno mental, que altera, radicalmente, sua percepção da realidade e a capacidade de exercer o livre arbítrio. A identificação precoce do transtorno é a principal forma de reduzir o risco de suicídio.

Quando uma pessoa pensa em se suicidar terá risco de suicídio para o resto da vida?

Mito. O risco do suicídio pode ser eficazmente tratado e, após isso, a pessoa não estará mais em risco. O que não descarta a importância do acompanhamento do paciente após tentativa.

As pessoas que ameaçam se matar, não farão isso, querem apenas chamar atenção?

Mito. A maioria dos suicidas fala ou dá sinais de sua ideia de morte. Boa parte do suicida expressou esse desejo, em dias ou semanas anteriores, frequentemente, aos profissionais de saúde.

Se uma pessoa se sentia deprimida e pensava em suicidar-se, em um momento seguinte, passa a se sentir melhor, significa que o problema já passou?

Mito. Se alguém pensava em suicidar-se e de repente, parece tranquilo, aliviado, não significa que o problema já passou. O sentimento de alívio pode estar associado a decisão já tomada a respeito do desejo de se matar.

Quando um indivíduo apresenta melhora do quadro, ou sobrevive à uma tentativa de suicídio significa que está fora de perigo?

Mito. Um dos momentos mais delicados é quando o paciente está melhorando do quadro que motivou a tentativa, ou quando a pessoa ainda está hospitalizada. Esse fato pode ser visto com espanto, mas é real. Muitos profissionais não foram capacitados para lidar com Saúde Mental e até por defesa, abordam o suicida de forma preconceituosa. É comum escutar relatos de pacientes que durante a internação, são surpreendidos com frases como: “Se quisesse mesmo se matar, se matava”. O retorno para casa também é um momento muito delicado, afinal, o paciente terá que realizar reparações, dar justificativas e em alguns casos, passam a sentir-se vigiados pela família. O acompanhamento psicoterapêutico após a crise, é de fundamental importância para que a experiência possa ser ressignificada. Na rede pública, o paciente, no momento da alta, já é encaminhado para o serviço de saúde mental de referência.

Não se deve falar sobre o suicídio, porque isso pode aumentar o risco?

Mito. Muito pelo contrário, falar com alguém sobre o assunto, pode ajudar a diminuir a angústia e liberar a tensão que a presença desse pensamento provoca.

É proibido que a mídia aborde o tema suicídio?

Mito. A mídia tem obrigação de abordar esse importante assunto de Saúde Pública, mas da forma adequada.

A identificação dos fatores de risco e proteção é fundamental e auxilia os profissionais da saúde a determinar clinicamente o risco. A identificação desses fatores não está restrita a tais profissionais, mas também a qualquer profissional se capacitado poderá fazê-lo. Os dois principais fatores de risco são: a tentativa prévia e a presença de transtornos mentais não identificados, ou até mesmo abordados de forma inadequada. Dentre os transtornos psiquiátricos, incluem-se a dependência química, a depressão, o transtorno afetivo bipolar, transtorno de personalidade e esquizofrenia. Pacientes portadores de comorbidades têm o risco aumentado. Entretanto, existem outros fatores de risco como por exemplo, a presença de sentimentos de desesperança, desamparo e impulsividade, a idade, gênero, eventos adversos na infância e adolescência, história familiar e genética, doenças clínicas não psiquiátricas e fatores sociais.

Os sentimentos de desesperança e desamparo são fortemente ligados ao suicídio e podem persistir mesmo depois de um tratamento para a depressão. A impulsividade associada ao abuso de substâncias pode ser letal. Em relação a idade, o suicídio entre jovens aumentou nas últimas décadas e hoje representa a terceira causa de morte nessa faixa etária. O suicídio também é elevado em idosos, em virtudes das perdas, do sentimento de solidão e das enfermidades. Em relação às questões de gênero, os óbitos por suicídio são três vezes maiores entre os homens do que entre as mulheres, entretanto, quando falamos em tentativas, as mulheres superam em igual proporção, os homens. Conflitos relacionados à identidade sexual aumenta de forma significativa o risco de suicídio. As taxas de suicídio são maiores em pacientes com quadro clínico grave. Os sintomas não responsivos e as primeiras semanas após o diagnóstico são o período mais delicado.

 A presença de eventos traumáticos na infância e adolescência tais como abuso sexual, físico e a presença de transtorno psiquiátrico na família também aumenta o risco. Assim como algumas situações sociais tais como: o desemprego e pouco vínculos sociais. Existem também os fatores protetores que são: autoestima elevada, bom suporte familiar, boa capacidade de estabelecer vínculos, religiosidade, ausência de doença mental, estar empregado, ter crianças em casa, gravidez desejada e planejada, capacidade de resolução de problemas, relação terapêutica positiva, além de acesso a serviços e cuidados em saúde mental. O tema suicídio é muito amplo, não se esgota aqui. Abordarei nos próximos textos, avaliação e manejo do paciente, os principais transtornos psiquiátricos e como abordá-los, posvenção e qualidade de vida.

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