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Plantão psicológico com idosos: relato de uma experiência

Por Carina Lordelo

No dicionário, a palavra velho está associada a algo antigo, ultrapassado, gasto e acabado. Tem como sinônimo, idoso. Quando olhamos para uma pessoa de idade avançada, imediatamente, associamos à fragilidade e dependência. Isto porque consideramos o aspecto biológico e menosprezamos os demais. O conceito de envelhecimento para Neri compreende os processos de transformação do organismo que ocorrem após a maturação sexual e que implicam a diminuição gradual da sobrevivência. Esse conceito entende a pessoa do ponto de vista biológico e desconsidera os aspectos psicossociais, desse processo, nomeados como envelhecimento. Ainda não foi encontrado um termo que melhor expresse essa fase da vida. A velhice, por sua vez costuma ser definida por eventos de natureza múltipla, incluindo, por exemplo, perdas psicomotoras, afastamento social, restrição em papéis sociais e especialização cognitiva. Costuma-se falar das perdas e não das habilidades adquiridas. Cora Coralina iniciou sua carreira como poeta aos 76 anos, e através de um poema receita, apresenta uma visão positiva do envelhecimento.

“Eu não tenho medo dos anos e não penso em velhice. E digo para você, não pense.
Nunca diga estou envelhecendo, estou ficando velho. Eu não digo. Eu não digo que estou velha, e não digo que estou ouvindo pouco.
É claro que quando preciso de ajuda, eu digo que preciso.
Procuro sempre ler e estar atualizada com os fatos e isso me ajuda a vencer as dificuldades da vida. O melhor roteiro é ler e praticar o que lê. O bom é produzir sempre e não dormir de dia.
Também não diga para você que está ficando esquecido, porque assim você fica mais.
Nunca digo que estou doente, digo sempre: estou ótima. Eu não digo nunca que estou cansada.
Nada de palavra negativa. Quanto mais você diz estar ficando cansada e esquecida, mais esquecida fica.
Você vai se convencendo daquilo e convence os outros. Então, silêncio!
Sei que tenho muitos anos. Sei que venho do século passado, e que trago comigo todas as idades, mas não sei se sou velha, não. Você acha que eu sou?
Posso dizer que eu sou a terra e nada mais quero ser. Filha dessa abençoada terra de Goiás.
Convoco os velhos como eu, ou mais velhos que eu, para exercerem seus direitos.
Sei que alguém vai ter que me enterrar, mas eu não vou fazer isso comigo”.

 Cora Coralina

Qual direito reivindicado por Cora? Ser tratada sem discriminação, vista em sua humanidade? De acordo com (PAIVA, V, AYRES, J e BUCHALLA, C ,2012 p31), “(…) a intervenção em saúde deve incorporar os componentes centrais de uma abordagem baseada em Direitos Humanos”. A proposta deste artigo é o relato de uma plantonista, de uma unidade básica de saúde, a partir dos seus encontros com os idosos. O plantão será aqui entendido como uma prática clínica que, através da oferta de um espaço de escuta, promova o exercício de abertura para o novo, diante do sofrimento e, dessa forma, possibilite a ressignificação.

Para tanto, foi utilizada como eixo teórico norteador, a Abordagem Centrada na Pessoa, uma vez que ela busca resgatar o respeito e a ênfase no ser humano, destacando o papel dos sentimentos e da experiência como fatores de crescimento. Busca centrar-se na relação interpessoal, construindo condições psicológicas adequadas ao desenvolvimento do potencial de mudança daquele que recorre a uma relação de ajuda. A pessoa é aqui vista como sendo capaz de autorrealizar-se e autoatualizar-se desde que lhe sejam oferecidas condições adequadas para tal. É necessário, então, considerar as expressões singulares e os sentidos subjetivos próprios, mas igualmente considerar as múltiplas influências recebidas do meio no processo contínuo de produção de subjetividade. É o princípio de uma prática psicológica que ratifica a vida e as inúmeras possibilidades que o ser humano tem de operar mudanças em seu autoconceito, em seu comportamento e em suas atitudes diante das situações vividas, uma vez dadas as condições necessárias para tal. Os idosos também podem ser beneficiados por essa abordagem.

No período de dois anos, pude realizar a escuta de idosos no plantão. A maioria das queixas iniciais estava relacionada à depressão, distúrbio de sono e queixas somáticas. A depressão tinha alta prevalência é, na maioria das vezes, tratada com antidepressivos ou hipnóticos. Escutar o relato dessas pessoas me fez repensar o meu próprio conceito de velhice, permitiu quebrar velhos tabus, enfim, uma grande surpresa e aprendizado. Surpresa porque esperava pessoas frágeis, enlutadas, despedindo-se da vida. Encontrei por trás do sintoma da depressão, questões comuns a outras faixas etárias, ou sejam, universais. Tais questões incluem-se dificuldade nos relacionamentos conjugais, questões relacionadas à sexualidade, violência doméstica, sobrecarga de trabalho, ociosidade, etc.

No que tange aos relacionamentos conjugais o fato que despertou mais atenção foi ser um assunto recorrente. Em muitos casos, casamentos em que o homem aposentado passou a ficar mais em casa e a mulher empoderada, em virtude do contato com mulheres de outras gerações, passa a exigir desse homem algo que ele não aprendeu a dar. A falta de prazer sexual também se constituía em um problema assim como, o alcoolismo. Certa vez fui convocada responder a uma pergunta de um senhor, a qual me parece comum aos demais integrantes do grupo, pelas reações: “O que eu faço doutora se quando olho no espelho me vejo um menino”? Entendi a pergunta como: ainda posso satisfazer aos meus desejos? A risada dos demais integrantes responde à questão.

Os desdobramentos desse encontro eram construídos a duas mãos e, na sua maioria, implicava em uma resposta de equipe multiprofissional. Essa forma de realizar clínica parte de uma visão ética e tem repercussões na vida das relações sociais, pessoais e até políticas. A abordagem centrada na pessoa é muito mais ética do que técnica. Quanto ao encontro com essas pessoas, ficou claro que, independente da idade, todos somos um ser em processo, em movimento, dinâmico, em construção e nunca passível de ser visto como incapaz de reinventar-se. Com meus pacientes utilizo o termo idade dourada. Afinal, nessa idade, já não necessitamos mais tanto de aprovação e podemos falar o que quiser.

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