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Dependência química: o papel da família e os diversos tipos de tratamento.
A definição dada pela Organização Mundial da Saúde para dependência química é de um estado físico e psíquico resultante da interação de um organismo vivo e uma substância que se caracteriza por apresentar alterações comportamentais e outras reações que incluem o impulso de usar a substância de modo contínuo. Existem dois critérios diagnósticos que servem para ajudar o profissional de saúde a classificar os problemas relacionados ao uso da substância em questão: o CID -10 e o DSM -5. No Brasil, o critério CID -10 é adotado no SUS (Sistema Único de Saúde) cujo critério abrange todas as doenças, incluindo os transtornos mentais. O DSM-5 foi elaborado pela Associação Americana de Psiquiatria e contempla apenas os transtornos mentais de forma mais detalhista e complexa.
Tais critérios foram adotados para que o diagnóstico adquira um caráter universal, aplicável a qualquer usuário e com o objetivo de facilitar a comunicação entre os diversos profissionais de saúde. O diagnóstico é descritivo e objetivo, na medida em que é observado sinais e sintomas que caracterizam a síndrome. Cada critério diagnóstico possui níveis de gravidade. E ainda, considera a dependência química como uma síndrome de caráter multifatorial, que possui aspectos biológicos, psicológicos e sociais. O uso do critério não deve contribuir para a tipificação e consequente estigmatização do cliente. A família e o usuário são atores fundamentais no processo de recuperação, por isso devem entender os códigos linguísticos utilizados.
Afinal, o tratamento é delineado a partir de uma relação dialógica que se estabelece entre o profissional da saúde, o paciente e a família. Através da minha atuação na rede pública de saúde, pude perceber o quanto a incompreensão da linguagem, que é utilizada no momento da consulta, funciona como um poderoso obstáculo para a formação do vínculo. No tratamento da dependência química, é importante compreender o sentido que o uso da substância adquire para o paciente e sua família. Assim como, substituir a palavra culpa por responsabilidade. O projeto terapêutico a ser construído para sua recuperação deve envolver a família, os usuários, e os profissionais de saúde.
O primeiro contato do paciente com a equipe de saúde é de fundamental importância para um bom prognóstico do tratamento. Além de adotar uma postura empática, o profissional, deve ser capaz de identificar as necessidades e também potencialidades do paciente e seu núcleo familiar, entender seu processo de adoecimento, identificar redes de proteção e de risco e deixar claro que o projeto terapêutico será construído a partir da responsabilização de todos atores envolvidos.
A dependência química pode ser descrita como uma doença de caráter biopsicossocial, afinal, envolve aspectos físicos, psicológicos e sociais. Desta forma, o tratamento deverá contemplar intervenção em todos esses níveis, o que implica trabalho em equipe multidisciplinar. Na prática clínica, além de nos guiarmos pelos critérios diagnósticos descritos acima, também avaliamos: os prejuízos sociais, ocupacionais e educacionais decorrentes do uso, a questão da vinculação, a preservação dos valores, as comorbidades e as relações familiares.
A família é de fundamental importância no tratamento. A definição de família é “um grupo natural, que através dos tempos, tem desenvolvido padrões de interação (Minuchin, Fishman, p.21, 1990)”. Tais padrões formam a estrutura familiar por meio de movimentos contínuos e de trocas entre os indivíduos. Quando ocorrerem modificações no sistema familiar, a vida de cada membro sofre alterações e modificações que gerarão influências significativas nos padrões comportamentais de todos os membros da família. Portanto, o tratamento de um membro familiar afetará os demais.
Dessa forma, o tratamento do dependente químico está diretamente relacionado à tolerância da família a tais transformações. Se isso não for considerado, corre o risco de o tratamento ser interrompido. São os pactos familiares que precisam ser reformulados. O ideal é que o tratamento do dependente seja realizado simultaneamente com um acompanhamento familiar, preferencialmente, de base sistêmica. Ou até mesmo o gerenciamento familiar que permite que a família obtenha informações a respeito do funcionamento da doença e aprenda uma melhor maneira de lidar.
O momento mais delicado para as famílias talvez seja escolher qual tratamento oferecer ao seu familiar. Muitas vezes é indicado a procura de um profissional que possa ajudar a esclarecer o que está em jogo no momento da escolha e que possa fornecer informações sobre os diversos tipos de tratamentos existentes. Essa escolha depende de inúmeros fatores: financeiros, afetivos, gravidade do quadro e conhecimento da rede de saúde mental do território.
Na Rede Pública, a trajetória do paciente depende da gravidade do quadro. Se o paciente tiver condições clínicas que exigem monitoramento constante das funções vitais, e precisar de assistência médica para passar pela abstinência, será encaminhado ao hospital geral. Caso contrário, se for de uma gravidade leve será acompanhado na UBS de referência. Ao Capsad (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas) serão encaminhados os usuários que necessitem de uma intervenção mais complexa, que deverá ser realizada em equipe multidisciplinar, através da elaboração do projeto terapêutico individual.
Os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) são serviços estratégicos dentro da rede de saúde mental. São divididos em três modalidades: infantil, saúde mental e álcool e drogas. Caracterizam-se por ser de caráter aberto e comunitário, constituído por equipe multiprofissional e que atua sobre a ótica interdisciplinar e realiza prioritariamente atendimento às pessoas com sofrimento ou transtorno mental em sua área territorial, seja em situações de crise ou nos processos de reabilitação psicossocial. O eixo norteador das práticas do Caps é a política de redução de danos e a participação deve ser voluntária.
Na rede privada, o fluxo de atendimento não é tão claro e muitas vezes, gera angústia na família que deseja oferecer o melhor tratamento ao paciente. São as condições psicossociais do paciente que irão determinar os encaminhamentos. A família poderá utilizar o espaço do plantão psicológico ou do gerenciamento familiar para pensar nas diversas possibilidades de manejo da crise. Acredito que o melhor tratamento, é aquele que pode ser mantido até o final. Em São Paulo, a maioria das clínicas é gerenciada por instituições religiosas e por pacientes que se recuperaram e baseadas no programa dos doze passos. Mas existe também, as clínicas, que apresentam um projeto terapêutico baseado na terapia cognitivo comportamental e com foco na reinserção social do paciente.
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